Já deve fazer dois anos que eu não depilo minhas pernas. Foi uma decisão difícil, cheia de poréns no meio do caminho. Quando conheci o Feminismo não fiquei apavorada de ter que virar lésbica, nunca mais me depilar, ser contra o capitalismo, ir em todas as manifestações e brigar com todo mundo - ok, eu faço varias dessas coisas, mas porque eu escolhi. Essa foi a maravilha do Feminismo, eu posso criticar e questionar sistemas de funcionamento da sociedade e escolher o que eu quero pra mim, mas nem sempre isso é fácil.
O senso estético é fortemente enraizado nas mulheres por meio da cultura de massas - filmes, revistas, novelas, blogs, canais, correntes de Whatsapp, cursos de especialização, inclusive em piadas - e, embora não seja muito difícil questioná-lo, contrariá-lo é quase uma missão impossível. Quase.
Sobre esse assunto eu recomendo o documentário Miss Representacion (disponível no Youtube e na Netflix).
Conheço muitas pessoas que posso chamá-las tranquilamente de hipócritas, ou que são liberais só quando elas mesmas são as beneficiadas. Por exemplo, mulheres que saem transando com vários caras - beleza, cada um escolhe o estilo de vida quiser,- mas que julga outras mulheres por fazerem as mesmas coisas.
— Tudo bem eu transar adoidado, eu não sou uma mulher comum, menininha… Mas que HORROR, o que aconteceu com as suas pernas? Por que não as depila?
— Porque eu não quero, não vejo necessidade.
— Mas fica muito feio!
— Existem mulheres que dirão o mesmo sobre você dormir com vários caras.
— Mas isso é diferente.
Apresento-lhes então, o moralismo seletivo.
Tive sorte de conhecer o Feminismo não como um movimento “cagador” de regras, perdoem-me a expressão, mas como um que liberta as mulheres da opressão dos sistemas dominantes, exploradores, patriarcais, capitalistas, racistas, etc. O movimento, que não tem lá as melhores formas de comunicação do mundo (que tal formarmos mais militantes na área de publicidade?), ensinou-me muitas coisas, sou deveras grata por ele, e também por ter nascido mulher no século XXI, numa família de classe média baixa em que pude ser letrada, criada no governo Lula e ingressado numa universidade Federal gratuita, pública, - embora cheia de defeitos - de muita qualidade, principalmente no quesito de pesquisa e extensão. Tudo isso conta na minha formação enquanto ser humano que nasceu numa determinada cultura, numa determinada época e que teve muitas oportunidades, o que me permitiu ter a possibilidade de fazer escolhas. Isso porque, por exemplo, eu poderia entrar para uma facção criminosa, virar ladra, drogada, prostituta, ou engenheira, advogada, delegada, professora, manicure, costureira, qualquer coisa que eu quisesse sem pensar que um dia eu passaria necessidade ou fome. Isso é poder escolher, ter consciência efetiva de consequências da vida em sociedade e trilhar um rumo só seu, único porque só você vive sua vida, e, ao mesmo tempo, comum aos outros porque você não vive num buraco.
